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Colunista Joana Gleyze – Ceticismo político em Colônia: há metafísica bastante em não pensar em nada?


Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

O relógio aponta o meio-dia. O sol nesta cidade é tão forte quanto em outras e mesmo assim parece não queimar os arbustos que carregam por dentro aqueles que perambulam debaixo deste sol. É meio-dia e alguns instantes a mais, o relógio me diz numa linguagem silenciosa. Compartilha comigo uma falta do que falar e é tão vítima do tempo quanto eu, indefeso ao passar dos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos… E carrega também o peso de não parar para pensar no porquê de o tempo nunca parar. Nesta cidade, nesta pequena Colônia, dizem terra de uma pequena princesa que aqui (não) pisou, as pessoas caminham por entre os dias engrandecendo seus egos, apequenando outras pessoas e, na tentativa de dar sentidos às suas vidas, preocupam-se menos com suas próprias para atender com urgência ao interesse pelas vidas de outras pessoas, motivadas por uma razão interior que desconheço. Essas mesmas pessoas caminham pelos dias com um ceticismo profundo que nem elas mesmas percebem que seus cotidianos estão presos a todos os aspectos que constroem um interior particular nesta colônia interiorana que carregamos por dentro.

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(Imagem ilustrativa. Reprodução: Internet)

Nós nos sentimos incrivelmente ofendidos por pontuações que sabemos fazer sentido quando reparamos o cheiro que emana desses nossos dias, um cheiro que não conseguimos definir pelo mesmo ceticismo que nos faz não aprofundarmos nossos sentidos. Não estou a falar de outra coisa aqui que não o sentimento de impotência pelos dias que passam sem nenhum controle e que deixamos as coisas nos mesmos trilhos. Pior, não sentimos falta dessa falta de cheiro da mudança.

Posso dizer, da mesma forma, que a vida interiorana é tão mais vida e cheia de algum sentido que flerta escancaradamente com o metafísico e, não, não há metafísica bastante, que me perdoe o Caeiro (de Pessoa), que me perdoe a metafísica por não ser bastante. Em pleno meio-dia e alguns minutos de nossas vidas, sol escarcalhando a terra e os paralelepípedos nas ruas e alguém falando em metafísica.

Não vou falar da natureza que abraça esta cidade pois ela também é abraçada por canas e canas, e apesar de dar sentido econômico ao que se espera de uma cidade interiorana da Mata Alagoana, também tem o poder de aprisionar pessoas, por seus interesses diversos e pensamentos céticos de mudança. Não se muda pelo ceticismo de caminhar pelos dias aprisionado, sem perceber. Aprisionados por algumas outras pessoas que abraçam esta cidade de outras formas e por outros métodos ainda a calam.

Meio-dia e muitos minutos, poucas pessoas na rua, cidade tão deserta por agora quanto os pensamentos revolucionários que aqui permeiam. Contudo, não há época ruim para o pensar revolucionário, bem como qualquer outro que se siga, mesmo que estejamos todos abraçados pela cana e pelos métodos escusos de alguns poucos que seguram com garras de ferro as grades que cercam esta cidade. Esta pequena Colônia, aprisionada e cética. Sem representantes. Sem uma quantidade expressiva e necessária de eleitores conscientes, calçados pelo sentimento cético, se posso dizer do ceticismo sentido de alguma forma.

Não consigo lembrar como cheguei aqui, a essa altura do texto, mas posso entender o porquê, já que não sei também como levar os dias sem observar que nenhum de nós sabe como chegou onde está, embora tenha vaga ideia. Tão vítimas do tempo quanto eu, outros mais marcados pela pele. Palavras foram esquecidas e descartadas pelo uso de outras palavras usadas para dizer outras coisas. A única fagulha exterior neste patamar interiorano é o barulho do relógio e ele mesmo por que o tempo não joga somente com os céticos, joga com os pensamentos revolucionários, mortos por ele mesmo e aprisionados por “não se sabe quem”.

(…)
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)
PESSOA, Fernando.. Poemas de Alberto Caeiro (“O Guardador de Rebanhos”).

 

Att,

Joana Gleyze

Acadêmica de Direito – UNIT

E-mail: joanagleyze@gmail.com

 

O texto acima é de responsabilidade de seu autor.

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