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Colunista Letícia Sobreira – Wassú Cocal: a luta pela sobrevivência da tribo

Wassú Cocal: a luta pela sobrevivência da tribo

(Foto: Fátima Pereira)

(Foto: Fátima Pereira)

Quando crianças, aprendemos logo cedo sobre o “descobrimento” do Brasil e a colonização dos povos nativos destas terras. É sabida a história em que se diz que Pedro Álvares Cabral, desembarcando em nosso território, avistou os nativos aos quais passou a referir-se como “Índios”, por acreditar que havia chegado à Índia. O que geralmente se esquecem de nos contar na escola é que a tal colonização não aconteceu através de diálogos e acordos, mas sim, com derramamento de sangue, exploração e escravatura. Nosso país foi construído sobre os corpos de seu próprio povo e, até os dias de hoje, toda comunidade indígena sofre com descasos por parte do corpo social.

Ontem (19), os índios Wassú Cocal, de etnia Kariri, localizados na região do Vale do Paraíba e Mundaú, zona rural de Joaquim Gomes (município limítrofe de Colônia Leopoldina), interditaram a BR-101, no trecho em que a rodovia corta suas terras. Eles estão reivindicando o ajuste do Plano Básico Ambiental Indígena, que deveria ser feito junto com a duplicação da rodovia, além da construção de escolas, pagamento da verba indenizatória e a relocação das casas.

O desdém com a população indígena tem raízes na ignorância e no egoísmo daqueles que desconhecem o valor histórico e cultural desse povo, além da falta de empatia para com o sofrimento da batalha diária de resistência travada naquele local. Os Wassú Cocal receberam a doação de suas terras pela Coroa Portuguesa, ainda no século XVII, no entanto, em 1872, um decreto da Província de Alagoas, destituiu todos os índios de suas terras, jogando-os na miséria e fazendo com que se submetessem a condições precárias e sub-humanas de trabalho nos canaviais da região. Depois de quase um século de luta, só na década de 1980 os índios da província retomaram seu direito de viver em agrupamentos de aldeias e ganharam o reconhecimento étnico e a demarcação de suas terras.

Hoje, os Wassú Cocal se dividem em quatro núcleos: Cocal, Pedrinhas, Fazenda Freitas (Gereba) e Serrinhas, somando 2.758 hectares de terra que abrigam plantações e uma população de 2.234 pessoas, segundo o senso do IBGE de 2010. Dentre as muitas dificuldades encontradas ali, a mais fatigante é o comum desrespeito de usineiros e fazendeiros que insistem em não reconhecer os direitos dos povos indígenas sobre aquelas terras, além do aparecimento constante de oportunistas em sua região. O corte da área Wassú pela BR-101 tem colocado em risco da sobrevivência da cultura indígena da aldeia, por expor a comunidade ao fácil acesso de visitantes mal intencionados e a facilidade da entrada do comércio ilegal e tráfico de drogas, tornando a comunidade vulnerável e os aldeões propícios à criminalidade.

Como se já não bastassem todos esses tormentos vividos pelos Wassú Cocal, os índios ainda precisam lidar com a arrogância de todo o povo circunvizinho. Os municípios limítrofes da aldeia não recebem um mínimo de instrução educacional sobre aquele povo, os verdadeiros nativos de nossa região, que estão tão próximos territorialmente, mas distantes em igualdade social. Este agravante torna pobre a nós, vizinhos da tribo, por desconhecer a riqueza de tal cultura, e deixa favoráveis e cômodos atos de ignorância para com os indígenas da região que, na busca e reivindicação de seus direitos, bloqueiam o trânsito na BR-101, como única forma de serem enxergados e ouvidos para assim, quem sabe, serem atendidos.

Sobre Letícia Sobreira

Leopoldinense, 19 anos, estudante de jornalismo na Universidade Federal de Alagoas.

Um comentário

  1. josé francisco neto neto - zé de melo neto

    Caríssima Letícia!

    Do ponto de vista antropológico, é extremamente necessário este debate que você, já em segundo artigo, nos apresenta. Índios são gentes que também carecem de respeito, de condições para viver, de liberdade e de reconhecimento.
    Do ponto de vista da educação, você levanta uma questão de ordem curricular, isto é: como nós outros vizinhos não conhecermos a história desse povo. Compete aos educadores e educadoras a tarefa de mais organizar esses nossos conteúdos programáticos de suas disciplinas. Esta parte também cabe a todos nós, independentemente de trabalharmos em educação. Afinal, uma escola precisa tornar-se um ambiente de ensino e aprendizagem, em especial, da nossa própria história.
    Do ponto de vista político e ético, o reconhecimento é fundamental para que superemos os nossos preconceitos mesmos, e. acabemos, de vez, em querer sempre tratar o indígena como um cidadão sem cidadania ou alguém de segunda categoria.
    Meus parabéns pela disposição de nos apresentar, com seus artigos, problemas candentes que precisam ser atacados e resolvidos.
    Abraços.

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