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Colunista Zé de Melo – Educação e Profissionalização

            Várias narrativas de governos estaduais vêm apresentando ênfase para a educação: a alfabetização da população que ronda os milhares e a profissionalização da juventude, com a construção de várias escolas técnicas, em seus estados. Estes são dois objetivos extremamente importantes como ações para um Plano de Educação.

            Um primeiro olhar, parece apontar que o problema maior é a construção de escolas que, com os parcos recursos, podem não ser construídas, considerando o alto custo das mesmas, em especial, a montagem e, sobretudo, a sua manutenção. Isto, todavia, precisa estar equacionado nos planos do governo, e não será a maior dificuldade. O problema maior não mora na construção de edifícios mas no preparo humano dos futuros profissionais que assegurarão a continuidade do processo educativo profissional. Esta questão foge, totalmente, ao controle do Estado, inicialmente. O desafio central está na educação daí desenvolvida, que tem na divisão do trabalho a sua reprodução. Para que forçar as cabeças dos futuros profissionais, sejam eles nas futuras escolas técnicas estaduais, nas existentes, nas universidades, ou em qualquer ambiente de formação profissional, com a divisão do trabalho existente na sociedade dominante? Isto significa, tão somente, educar humanos com um disciplinamento estritamente de repetidores de tarefas, gerando a monotonia do desumano. O fazer sem acompanhar o pensar.

            A formação dominante na qualificação para o trabalho, e todos/as precisam estar qualificados para o trabalho, está sendo aquela que reforça essa divisão social do mesmo. Esta faz com que se promova a cisão do trabalho intelectual (teórico) do trabalho manual (prático); a atividade intelectual e a atividade material; o produto do trabalho e a posse do mesmo; e, ainda, o prazer e o próprio trabalho estariam partilhados para indivíduos diferentes – o trabalhador e o dono do trabalho.

            Essa aprendizagem escapa às orientações estatais e aparece, agora, nas mãos dos formadores desses profissionais que poderão optar por um trabalho que reforce a divisão também da riqueza entre pessoas distintas – trabalhador e patrão –, gerando a riqueza de uns e a pobreza de outros, e ainda, a oposição entre o saber e o trabalho. Um reforço descomunal entre um alguém que pensa e um outro que faz; um que pensa e outro que pratica. Em síntese: uma dura e desnecessária divisão entre as atividades teóricas e as atividades práticas. Por cima, ainda se justificam, propalando-se que estas são coisas separadas, reforçando-se no aluno a ideia de que ele será um agente, meramente, a serviço da aprendizagem da prática, e isto basta. Ele não precisa pensar, pois outros pensarão por ele. Uma visão de que a prática e a teoria caminham distantes uma da outra. Assimilado assim, esse aprendiz se afastará da dimensão fundante do trabalho que é a dimensão cultural, isto é, a capacidade de pensar o que faz e fazer melhor o que pensa, na rede infindável da vida – a unidade teoria e prática – enfim, a práxis humana. Um princípio que está sendo combatido pela “Escola Sem Partido” e contemplado na atual reforma da educação do Governo Temer

            Pensar a profissionalização da juventude é um dever da sociedade sim, um direito à cidadania. O dever de educar (formar) o profissional para que ele não se torne uma mera ferramenta reprodutora, sem pensamento daquilo que faz, é ajudar na construção de um humano que seja apenas uma peça na engrenagem social. Sobre a repetição, máquinas há que estão fazendo melhor do que os humanos.

            Educar, na perspectiva da humanização, estabelecendo a práxis humana, é superar a dimensão de bichos e máquinas, tão somente, e enunciarmos a dimensão de humanidade de cada um. Mas, com a aprovação da recente Reforma da Educação e da PEC 55, essa possibilidade parece ficar reduzida, doravante. Todavia, esta tarefa de profissionalização com as novas limitações e sem possibilidade de qualquer nova construção de prédio escolar, é discussão e análise para educadores e educadoras.

José Francisco de Melo Neto
Ex-presidente do Conselho Estadual de Educação
Professor Titular e Pesquisador da UFPB
Membro do Movimento Colônia e Cidadania – MCC
Membro da Academia de Cultura de Colônia – ACCL

 

O texto acima é de responsabilidade de seu autor.

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