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O valor de uma mãe

           maosfotomarcosantos001Eu era apenas um garoto. Nem fazia ideia de que um dia – quando eu lembrasse dessa história – já teria um garoto da idade que eu tinha naquela época: seis a sete anos. Estudava ali, no “Joaquim Luiz”, acho que na segunda série; era assim que a gente chamava. Minha mãe (a professora Elda e que a metade de Colônia chamava de tia sem ninguém ser meu primo) nos arrumava, a mim e a meu irmão mais velho, com todo cuidado. Mochila com o material nas costas, a farda por dentro da calça, cabelos bem penteados, os mesmos que hoje me começam a cair. Na hora da despedida, “bença, mãe”, um beijo na cabeça e… uma moedinha! Ela sabia que, lá na escola, a melhor hora, era a do recreio: comprar pipoca e confeito. Aquele dinheirinho, que parecia muito, não podia faltar. Todos os dias, religiosamente, a gente ganhava. Acho que era como uma nota de dois reais nos dias de hoje. O lanche estava garantido, saíamos radiantes. Nem por isso desprezaríamos a suculenta merenda: macarrão com almôndega ou sardinha, irresistível.

            Um belo dia, algo estranho aconteceu. ‘Mãe’ disse que não tinha dinheiro para dar naquele dia. Foi um choque. Para me explicar, baixou a cabeça e me olhou bem nos olhos: “Hoje não tenho, mas amanhã eu tenho e lhe dou, tá certo?” “Tá certo..”, murmurei. Fui para escola contrariado, mas sabia que sobreviveria. No outro dia ia ter pipoca e confeito, de certeza; foi o pensamento que me consolou. O dia seguinte chegou e, na hora da escola, em vez da benção estirei a mão pra pedir a moedinha devida, feliz por antecipação. “Hoje também não tenho…” Como ela não tinha?! “A senhora prometeu!”. Fiquei injuriado com raiva. Fiz um bico com meu beiço e cruzei os braços. Ela sabia que aquele era meu protesto máximo, mas fui mais além. Reclamei, bati o pé, chorei e saí de cara feia. Se ela disse algo mais, não lembro. Por que não escutei. Fui embora para aula, dessa vez inconsolável.

            Na verdade, não era um dia tão bonito. Percebi isso somente quando, já dentro da sala, ouvi os fortes pingos de chuva batendo na telha ‘brasilit’. Eu estava justamente distraído com isso quando a professora chamou meu nome. Era a minha mãe que estava na porta da sala para falar comigo. Só lembro de ver três coisas brilhando: seus dois olhos castanhos e, na sua mão, uma moeda, bem novinha, segurada na ponta dos dedos, exibida como um troféu. Ela estava sorrindo, com cara de feliz, acho que orgulhosa por ter conseguido, enfim, realizar a sua promessa. Meu Deus, minha mãe parecia uma miragem de tão bonita! Eu não conseguia acreditar que ela tinha trazido minha moedinha! Mal reparei que os seus cabelos estavam salpicados de chuva…

            Recordo que depois de voltar para meu lugar, ainda meio maravilhado por aquele gesto incrível de minha mãe, fiquei pensando, agora eu orgulhoso, no quanto ela gostava de mim. Foi quando os pingos de chuva ficaram mais fortes. Mais fortes e mais fortes. Começou a trovejar. A gente acreditava que eram pedras enormes batendo no céu que geravam imensas faíscas que caíam na terra: os relâmpagos. Uma ideia terrível me ocorreu: minha mãe estava debaixo daquela tempestade, daqueles raios, tudo por minha culpa, por causa de meu egoísmo. Ela saiu de casa por minha causa e agora corria perigo! Fiquei pensando, agora envergonhado, no quanto ela gostava de mim. Baixei a cabeça na mesinha da escola e, senti que meus cadernos estavam molhados. Não era goteira. Eu estava chorando, com a mesma intensidade daquela chuva.

Sobre Everton Calado

Leopoldinense, 35 anos, doutorando em Psicologia Clínica e atualmente professor de Comunicação Social na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

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